quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Virando as costas para Deus


“E viraram-me as costas, e não o rosto; ainda que eu os ensinasse, madrugando e ensinando-os, contudo eles não deram ouvidos, para receberem o ensino” (Jr. 32.33)


Introdução
O Capítulo 32 começa narrando a situação em que se encontrava o profeta Jeremias. Na ocasião, ele estava preso no pátio do palácio real porque havia profetizado que o Senhor entregaria Jerusalém nas mãos do rei da Babilônia e que o próprio rei Zedequias não escaparia das mãos dos caldeus que o levaria cativo e ali permaneceria até que o Senhor o visitasse. As palavras do profeta foram tidas como desmoralizantes à pessoa do rei, mas mesmo assim, o profeta não retrocedeu, pois bem sabia ele que era a Palavra de Deus que fora anunciada. Apesar da desolação diante dos últimos acontecimentos, Jeremias reconhece a soberania de Deus e se alegra nEle porque vê claramente, que existe uma esperança para os que esperam no Senhor pois que nada acontece ao acaso, há um propósito para todas as coisas e  nada escapa ao controle de Deus.

Contexto Histórico
O pano de fundo desta  narrativa, conforme descrito no v.2, era o momento do cerco do grande exército babilônico à Jerusalém em represália ao rei Zedequias que se recusava a pagar os tributos ao rei da Babilônia do qual era vassalo, tentando fugir ao seu controle . Zedequias era um dos filhos do rei Josias rei de Judá morto em batalha para defender o seu povo, Zedequias fora designado rei por Nabucodonosor, rei da Babilônia. Ele reinou em lugar de Joaquim, seu sobrinho,  filho de Jeoaquim seu irmão (Jr. 37).

A Babilônia, durante o reinado de Nabucodonosor impôs pesados tributos sobre as nações sob seu domínio, inclusive Judá. As sucessivas tentativas de não pagamento provocou a ira do Rei Nabucodonosor que investiu por três vezes contra Jerusalém, cada vez com mais violência, até destruí-la por completo. Nesse contexto, o Rei Zedequias, foi capturado e levado à presença do Rei Nabucodonosor, conforme a profecia descrita por Jeremias que disse no Cap 32.4b, “seus olhos verão os dele”.

Zedequias foi levado cativo para a Babilônia, juntamente com o restante do povo, ficando em Jerusalém somente os pobres (Jr 39.10). O Rei Nabucodonosor, tendo conhecimento acerca das profecias de Jeremias e do cumprimento das mesmas, ordenou ao seu capitão  que a ele não fosse feito mal algum e que procedessem conforme a vontade dele. A ele foi dado a opção de escolher ficar entre seu povo ou seguir, sob cuidados especiais  junto com a guarda do exército de Nabucodonosor para a Babilônia (Jr 39.12; 40.4,5). Conforme foi a escolha do profeta Jeremias, ele foi retirado do átrio da guarda onde se encontrava e levado para sua casa para ficar junto a seu povo (v.14), pois sabia que ali seria boca de Deus para os que ficaram totalmente a mercê de uma situação desoladora.

A Oração de Jeremias
Quando Jeremias ainda estava encarcerado (Jr 32.2), recebeu da parte do Senhor, ordens para comprar terras na sua terra natal, Anatote, lugar que estava sob o controle das forças do exército babilônico. Segundo as palavras do Senhor, um parente seu o procuraria e faria a proposta de compra de terras pertencentes à família. Da mesma forma que lhe fora dito, aconteceu e então, Jeremias entendeu que era a vontade do Senhor que ele comprasse aquelas terras e assim o fez (Jr 32. 6-9).

Depois de tudo acertado, Jeremias ora a Deus glorificando e exaltando o seu santo nome dizendo:

Ó SENHOR, meu Deus com o teu grande poder e com a tua força fizeste o céu e a terra. Nada é impossível para ti. Tens sido bondoso para milhares de pessoas, mas também tens castigado os filhos por causa dos pecados dos seus pais. Tu és o grande e poderoso Deus; o teu nome é SENHOR, o todo poderoso. Tu fazes grandes planos e coisas maravilhosas. Tu vês tudo o que as pessoas fazem e tratas cada uma de acordo com o seu modo de agir e de viver. Fizeste milagres e maravilhas na terra do Egito e continuas a fazer o mesmo até hoje, tanto em Israel como em todas as outras nações. Por isso, agora és conhecido em toda parte. Tiraste o povo de Israel da terra do Egito por meio de tua força  por meio de milagres e maravilhas que enceram de terror os nossos inimigos. Destes aos israelitas esta terra boa e rica, como havias prometido aos seus antepassados (Jr 32.17-22/NTLH)

A Rebeldia do Povo
Jeremias continua falando com Deus, e na sua fala ele reconhece que tudo o que estava acontecendo naquele momento era porque o povo a quem Deus tanto amava e por quem havia feito tantas coisas maravilhosas, ao adentrarem na Terra Prometida, acabaram se desviando de seus caminhos e praticando tudo o que era abominável aos olhos do SENHOR, passando a viver segundo seus próprios interesses em total e franca rebeldia (v 23).

Essa atitude atraiu para eles a ira de Deus que os entregou nas mãos dos inimigos babilônicos.  Deus havia ordenado para que exterminassem os habitantes daquela terra onde eles receberiam por possessão (Dt 7.1,2; 20.16-18;) porque a convivência com esse povo idólatra serviria de laço e faria o povo pecar contra o Senhor servindo a outros deuses (Êx 23.33). Moisés deixou bem claro ao expor ao povo que conforme o caminho que escolhermos, poderemos atrair para nossas vidas bênçãos ou maldição (Dt 28). A semeadura é livre, porém a colheita é resultado, é consequência.

Era comum aquele povo, não só a idolatria, mas também a imoralidade e o sacrifício de sangue inocente nos cultos pagãos. Por isso o Senhor os proibiu de qualquer união entre eles devido ao risco de contaminação. Porém, eles desobedeceram. O povo não procedeu conforme as orientações de Deus.

Talvez pensassem que não haveria o menor problema, afinal, cada um poderia levar a sua própria vida sem que isso os influenciasse de alguma forma. Mas não foi bem isso que aconteceu. A proximidade com o pecado faz entorpecer os sentidos, cegar o entendimento, ofuscar a luz de Deus e conduzir ao abismo.

O exemplo de Ló é bem claro quanto a isso. Ele foi morar nas Campinas porque foi atraído, talvez pela beleza, pelas possibilidades materiais, quem sabe! O fato é que mesmo  sabendo que Sodoma e Gomorra ficavam praticamente ali ao lado, ele não hesitou em seguir naquela direção. Com o passar dos tempos ele já estava dentro daquela cidade e passou a viver em meio aquele povo e mesmo não concordando com suas atitudes, acabou sendo conivente com aquela situação.

Essa convivência ‘pacífica’ com o pecado trouxe sérias consequências para a sua família e para ele próprio. Por isso o evangelista João recomenda: “Não ameis o mundo nem as coisas que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo.2.15). Estamos no mundo, mas não fazemos parte dele, pois somos cidadãos do Céu. Temos dupla identidade,  nossa estadia aqui é transitória por isso temos que tomar posição e assumir as responsabilidades inerentes a elas.

O Desabafo de Jeremias
O profeta prossegue no diálogo com Deus, desta vez  descrevendo  a situação caótica a que estavam sendo submetidos (como se Deus não soubesse) para comprovar que tudo estava de conformidade com o que o SENHOR dissera que sucederia. Mesmo sabendo de tudo, Deus se agrada quando apresentamos a ele a nossa causa, “clama a mim” (Jr 33.3), diz Ele:

Os babilônios construíram rampas de terras em volta das muralhas da cidade a fim de invadi-la e agora estão atacando. A guerra, a fome e as doenças vão fazer a cidade cair nas mãos deles. Como vês, tudo o que disseste, aconteceu (Jr 32.25/ NTLH).

Ao final de sua oração, Jeremias desabafa. Ele parece ainda não entender muito bem qual a razão de Deus manda-lo adquirir uma propriedade, considerando que a mesma estava de posse dos inimigos já que os babilônicos haviam tomado toda a cidade  (v 25).  Porém, o SENHOR lhe diz: “Ainda se comprarão  casas, campos e vinhas nesta terra” (Jr 32.15b). Com isso o Senhor estava lhe dando a esperança anunciando que um dia o seu povo retornaria à sua terra e comprariam terras e nelas construiriam casas e aquele lugar desolado seria de novo habitado. Deus trouxe a ele a existência de algo que parecia não ser possível acontecer, com isso lembrando que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28a).

Resposta de Deus às Orações de Jeremias
Deus confirma a sua soberania e diz que Ele é o SENHOR (Jr 32.27) e que por sua vontade  Ele  havia entregado Jerusalém nas mãos do rei Nabucodonosor, Rei da Babilônia (v 28) para que ele e seu exército a destruísse porque o seu povo estava queimando incenso para Baal e ofertando bebidas a outros deuses (v 29). Diz que desde o princípio o povo só havia feito o que era mau aos seus olhos provocando com isso a sua ira (v 30) e por isso decidira destruí-la (v 31). Conclui dizendo que o seu povo havia lhe virado as costas e que mesmo apesar de todo ensinamento eles não lhe deram ouvidos, não aprenderam a lição e não deram atenção nem mesmo às advertências das consequências de seus atos (v 33)  e continuaram . Deus menciona indignado o fato de o seu povo haver profanado o seu Templo, colocando ali os seus ídolos horrorosos  (v 34) além de terem construído altares para Baal no vale de Bem-Hinom, para ali queimarem os seus filhos e suas filhas em sacrifício a Moloque (v 35). Com isso Deus estava dando um basta naquela situação.

Promessa de Esperança

Depois de ter dito sobre o juízo que aplicaria a seu povo, Deus consola o coração de Jeremias fazendo uma promessa, dizendo profeticamente que depois de passado o período de aprendizado o qual eles seriam submetidos, os restauraria e os reuniria novamente para viverem ali naquele lugar em paz e segurança, como o seu povo pois eles O teriam como seu único Deus e faria com eles um concerto perpétuo, uma Nova Aliança (Lc 22.20) pela qual jamais deixaria de fazer o bem a seu povo por causa da justificação em Cristo. O Espírito Santo estaria atuando em seus corações, colocando o temor, de forma que nunca mais poderiam ser separados de Deus conforme está escrito: “Quem nos separará do amor de Cristo” (Rm. 38b). 

Conclusão
Deus é imanente, mas é também transcendente, o que isso quer dizer? Que Ele se manifesta a seu povo através de seus atributos cuidando de perto, zelando, conduzindo, abençoando, amando, porém, é soberano e justo e embora tenhamos o livre-arbítrio, a nossa liberdade não pode fugir à sua Lei. Qualquer transgressão gera consequências e na sua misericórdia, Deus tem alertado o seu povo quanto a essa questão, mas o povo não tem dado a devida atenção, tem virado às costas para os seus ensinamentos, vivendo em franca rebeldia contra o Deus. 

O cativeiro é uma das formas de disciplinar e trazer o povo de volta à obediência. Tanto ontem quanto hoje, embora os contextos sejam diferentes, na essência, o povo continua agindo da mesma forma. Mas conforme está escrito, “O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hb 12.6), pois qual o pai que ama seu filho negligencia a sua educação? Que possamos refletir sobre essas questões para a nossa edificação.

Sonia Oliveira


Veja aqui alguns dos Estudos disponíveis no Arquivo do blog:
  1. Samuel - Resposta ao chamado de Deus
  2. Juizes - Período Teocrático 
  3. Sansão - Exemplo de Imaturidade 
  4. Gideão - Um Homem Revestido de Poder 
  5. Abimeleque - Ambição Sem Limites 
  6. José do Egito 
  7. Josué e Calebe - Enfrentando o Gigante do Medo 
  8. Josué - A Derrota de Ai 
  9. Palavra de Deus - Uma Mensagem Transformadora 
  10. Evangelizar é Preciso! 
  11. A Vontade Soberana de Deus 
  12. O Espírito Santo a Terceira Pessoa da Trindade 
  13. Páscoa Cristã 
  14. Dons Espirituais 
  15. Missões com Excelência - A boa semente
  16. É Tempo de Despertar 
  17. Epístola aos Filipenses