segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Saber Esperar no Senhor

Por que estás abatida ó minha alma, e por que te perturbas em mim?” (Sl 42.5a)

Introdução
Este Salmo relata o sofrimento de um servo do Senhor em meio às adversidades e a sua busca em Deus para manter o equilíbrio. Temos uma natureza frágil e não raras as vezes, entramos em um quadro de ansiedade e depressão por conta das lutas, dos embates a que somos submetidos.

E nesses momentos de profunda angústia, ocorre uma luta travada em nossa mente, onde a nossa natureza humana tenta nos puxar para baixo, conduzindo-nos ao desespero enquanto a nossa porção espiritual, nos eleva até o nível mais alto onde podemos contemplar a grandeza, o poder e o amor de Deus. É, justamente, nesse estado emocional que se encontrava o salmista quando escreveu esse texto.

Ele estava angustiado e a sua mente coxeava entre dois pensamentos, mas ao mesmo tempo, trazia à memória os momentos de alegria que passara na casa do Senhor e isso o fortalecia. Ansiava por voltar a sentir a sua presença de novo. Essa poderosa mensagem nos revigora e nos dá a certeza de que só nos braços do Pai encontraremos paz refrigério para a nossa alma abatida.  

Autoria
Dos cento e cinquenta salmos escritos, doze são atribuídos aos filhos de Corá, e este é um deles. Alguns teólogos defendem a ideia de que o autor do texto seja Davi que descreve a sua situação mediante as perseguições de seu filho Absalão, e que foi entregue aos filhos de Corá para que estes colocassem a música na letra. Isso não fica claro na Bíblia, portanto, trata-se de conjecturas das quais não vou entrar no mérito.

O fato é que na epígrafe do Salmo o nome dos filhos de Corá é mencionado. Mas quem são os chamados filhos de Corá? Em Números 16, há o relato sobre a rebelião que ocorreu cerca de 400 anos antes da escrita deste Salmo e que foi liderada por Corá. Como castigo, ele e milhares de outras pessoas envolvidas foram tragadas pela terra, juntamente com tudo que lhes pertencia.

Porém, a misericórdia de Deus poupou a vida de seus filhos, pois os registros nos relatam que “os filhos de Corá não morreram” (Nm 26.11). A Bíblia não detalha a respeito dos motivos pelos quais as suas vidas foram poupadas, mas há duas possibilidades, a primeira, é de que houve arrependimento por parte deles e a segunda, a mais provável e mais aceita, é de que eles não participaram do episódio. 
O fato é que sendo eles da tribo de Levi e da linhagem de Asafe (1Cr 26.1), deram continuidade ao trabalho no Templo, cuja função era louvar a Deus por meio de cânticos (2Cr 20.19) e atuar como porteiros (1Cr 9.19).

Unidade Literária
Alguns exegetas defendem a ideia de que o Salmo 42 e 43 formam apenas uma unidade e que, por questões didáticas foram divididos.

Um coração sedento de Deus – v.1
“Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!”

A corsa é um animal de pequena estatura, arisco e de característica migratória. Ela vagueia de um lado por outro pois sua natureza não lhe permite o confinamento. Possui um olfato privilegiado e pode perceber o cheiro da água a quilômetros de distância. Em lugares desérticos como na África e no Oriente Médio, há construções de arquedutos que transportam as águas de um lugar para o outro por sobre a superfície.
As corsas sentem o cheiro das águas e segue o duto na tentativa de  matar a sua sede.  Observando, talvez, uma cena em que esse animal buscava com desespero pela água, o salmista, de forma poética tece uma comparação com o que ele estava sentindo naquele momento.

Por algum motivo, o salmista estava ausente do templo já por algum tempo. Ele manifesta a sua tristeza e a saudade que sentia de estar longe da presença do Senhor. Ao comparar-se com a cena da corsa em busca de água para beber ele deixa transparecer o quanto anelava pela presença de Deus em sua vida. A água é um elemento essencial a nossa sobrevivência e nada pode substituí-la. A falta de água pode comprometer a saúde e levar a óbito em três dias. Jesus, por diversas vezes comparou-se com a água para deixar claro que Ele é a essência da vida.

Certa feita quando passava por Samaria, Jesus aproximou-se do poço que ficava fora da cidade e lá, encontrando-se com uma mulher travou com ela um diálogo interessante. Primeiro ele pediu-lhe água para beber. Enquanto ela providenciava o seu pedido, Jesus lhe disse que quem bebesse daquela água, voltaria a ter sede, mas quem bebesse da água viva que ele tinha para oferecer, nunca mais teria sede porque essa água jorraria como fonte (Jo 4.14,15).

Em outra ocasião, Jesus também anunciou: “se alguém tem sede, que venha a mim e beba (Jo 7.37). Longe da presença de Deus, a nossa vida espiritual se extingue. Precisamos, assim como o salmista, desejar estar na presença do Senhor com a mesma necessidade de quem tem sede e busca pela água.  

Espiritualmente falando, quem está na presença do Senhor se sente completo, não tem mesmo necessidade de mais nada. Jesus sacia a nossa sede espiritual e por isso, as coisas do mundo já não nos fazem falta. Li em algum lugar uma mensagem cuja autoria desconheço, mas que vem bem de encontro a essa questão, dizia: “há um vazio em nossa alma do tamanho de Deus”. Em outras palavras, nada e ninguém pode preencher esse lugar a não ser o próprio Deus. Então não adianta buscar preencher esse vazio com coisas ou pessoas porque só Deus pode nos completar.

As pessoas que não conhecem a Jesus vivem um vazio existencial muito grande e por isso buscam em tantas coisas a felicidade e não a encontram em lugar algum. Como diz uma canção antiga “a alegria está no coração de quem já conhece a Jesus”.

Aplicação: Será que nós também sentimos essa necessidade de Deus? Podemos, assim como o salmista, dizer que temos sede de Deus e lamentar por não estarmos em sua presença o tanto que deveríamos? Ou será que já nos acostumamos a um relacionamento superficial que se tornou mais uma prática religiosa do que um gesto de adoração? Como está a sua e a minha vida diante do Criador? Muitas vezes, somos conduzidos ao deserto, justamente,  para sentirmos a sequidão de nossa alma e percebermos que temos necessidade vital da presença de Deus.

 Desejo de estar na casa de Deus – v 2
“ [...] quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? “ – v.2ª

Há momentos em nossas vidas que, nos sentimos exatamente da mesma forma que o salmista.  Olhamos a situação em volta e tudo parece desolação. Nesses momentos de dor experimentamos a mais profunda solidão. As vezes não encontramos palavras para expressar o que estamos sentindo e mergulhamos em uma introspecção onde o pensamento vagueia em muitas direções em busca de respostas. Parece que as coisas não acontecem como deveriam acontecer ou do jeito que julgamos que deveria acontecer. O desespero bate à porta e nesses momentos de tristeza, nos sentimos como uma criança que deseja estar nos braços do Pai para contemplar a sua face repleta de amor e bondade. 
Às vezes, não são as circunstâncias que nos impedem de ir à Igreja, mas a falta de forças para caminhar até lá. Quem nos olha, nem sempre vê a luta travada que está acontecendo em nosso interior e por isso não podem nos ajudar. Mas a Palavra de Deus vem ao encontro das nossas necessidades e nos conforta dizendo pela boca do profeta Isaías: “não temas porque eu sou contigo; eu sou o teu Deus, eu te esforço, eu te ajudo e te sustento com a destra da minha justiça” (Is 41.10). Deus é um Deus sempre presente, porque ele mesmo disse: “nunca te deixarei, nunca o abandonarei” ( Hb 13.5).

O salmista, por algum motivo estava distante e impedido de ir à casa de Deus. Essa situação o estava entristecendo sobremaneira, porque não há alegria maior para um servo de Deus que poder ir a Igreja a fim de cultuá-lo. Mergulhado na dor, ele trava um diálogo consigo mesmo onde se questiona em que momento poderia novamente se apresentar diante do Senhor face a face. Nutria em seu coração um desejo muito grande de voltar a frequentar o templo, de conduzir as festividades e se alegrar na presença do Senhor. Naquela época, o templo era o único lugar de adoração.

Voltando ao diálogo com a samaritana, ela perguntou a Jesus se havia um lugar específico para a adoração, ao que Jesus lhe respondeu, voltando os seus olhos para o futuro, dizendo que haveria um tempo em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai em espírito e em verdade.  Afirmando que é esses tais a quem o Pai procura.  (Jo 4.23).
Então hoje, nós sabemos que a adoração é um estado de espírito que faz com que o cristão esteja sempre na presença do Senhor, mesmo em situações das mais adversas, em qualquer hora e em qualquer lugar. Mas essa mensagem também nos ensina que devemos nos alegrar em estarmos na casa de Deus (Sl.122.1).

Quando perdemos o foco – v 3
As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, porquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?” (v 3)

O salmista diz que suas lágrimas se tornaram o seu alimento. É como dizer que ao invés de bebermos da fonte de águas vivas, preferimos nos alimentar daquilo que flui de nós mesmos. As lágrimas afloram ainda mais a nossa tristeza e nos impede de ver o quanto Deus se faz presente em nossas vidas, principalmente, em momentos de sofrimento.  O grande perigo de ficarmos presos em nossos próprios pensamentos é nos deixar guiar pelos nossos sentimentos.

A dúvida brota de um coração intranquilo e agitado. É preciso saber administrar bem as emoções porque a Bíblia nos ensina que o coração do homem é enganoso e perverso (Jr.17.9). Tanto é assim, que o próprio salmista começava a duvidar que Deus era em sua vida ao perguntar a si mesmo: “Onde está o seu Deus?”

Há momentos em que parece mesmo que o Senhor não se faz presente e que não vê o que estamos passando. Davi, um homem segundo o coração de Deus, em momentos de profunda angústia também se questiona a respeito disso, dizendo: “até quando se esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Sl 13.1).

Em meio à confusão das nossas emoções, às vezes fraquejamos e agimos de forma infantilizada.  Mas Deus conhece o nosso coração, sabe até onde suportamos a dor e nos socorre quando em nossas fraquezas, porque: “perto está o Senhor daqueles que o invocam” (Sl.145.18).  Deus está atento a tudo o que nos diz respeito. Mas há situações que ele permite para que possamos amadurecer na fé.

Vivendo do passado – v 4
“Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma...”  (v.4a)

As boas lembranças do que Deus já fez em nossas vidas deve ser o combustível para nos impulsionar para a frente. Porém, no caso do salmista, as boas lembranças não estavam funcionando nesse sentido. Muito pelo contrário. Ao contrastar as coisas boas que ele havia experimentado em Deus, com a sua situação atual, isso lhe causava perturbação na alma e melancolia. Novamente, a sua mente perturbada como que zombando de si mesmo começa a  atormentá-lo dizendo: “e o teu Deus, onde está?” É como se Deus o houvesse abandonado. Ele não conseguia mais ver Deus em sua vida. Como responder a essas questões tão difíceis? Por mais que um cristão seja fiel a Deus, isso não o isenta de passar por aflições (Jo 16.33b).

Será que estamos prontos para respondermos as zombarias que muitas vezes ouvimos de algum enviado de Senaqueribe? Será que temos respostas quando a doença chega, quando a dispensa está vazia ou quando o luto nos visita? Será que verdadeiramente podemos glorificar o nome do Senhor como fez Jó em meio às adversidades?  Podemos ver Deus em nossas vidas mesmo em meio ao deserto e às tribulações?

As tribulações nos ensinam a sermos dependentes de Deus, a glorificarmos o seu nome por tudo o que Ele tem feito em nossas vidas.  O sacrifício de louvor e gratidão a Deus é, justamente, quando glorificamos o seu nome em meio ao sofrimento. Chorando, mas cantando e dando glórias, sofrendo, mas adorando a Deus. Esse é o sacrifício que agrada o coração de Deus. É saber, que apesar de todas as perdas, de todas as dificuldades que passamos, Deus está acima de tudo. Ele é Deus, independentemente do que vier a fazer em nosso favor. Haja o que houver, sempre será Deus.  A nossa adoração tem que ser pelo que Ele é e não pelo que Ele pode fazer por nós.

Um abismo chama outro abismo - v 7
"Um abismo chama outro abismo ao ruído das Tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim" (v 7)

As catadupas, a qual ele se refere, eram como tornados de água. Essas águas, pela sua força, por onde quer que passassem poderiam causar um grande estrago. Um turbilhão como as torrentes das águas se agitavam dentro de si e ele se debatia sem, contudo, ver uma solução para seus problemas. Se antes ele estava se sentindo no deserto agora diz que Deus é alívio para o afogado, pois estava se afogando em lágrimas e via em Deus a única saída para o seu sofrimento. Quando ele diz que um abismo chama outro abismo está se referindo ao fato de que quanto mais ele tentava achar uma saída, mais e mais ele se afundava.

Um problema nunca vem sozinho, sempre vem acompanhado. Essa é a sensação de quem está com depressão. Parece que não tem saída para o seu problema e quanto mais se debate, mais afunda em si mesmo. Cada vez mais, é tragado pelas suas emoções desequilibradas até chegar ao fim do poço.

A espera em Deus- v 8
Contudo o Senhor mandará de dia a sua misericórdia, e de noite a sua canção estará comigo” (v.8).

Ele se lembra das misericórdias do Senhor que são infinitas e se renovam a cada dia (Lm 3.22,23) e isso lhe enche de esperança, “porque o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5b). O cristão pode passar por muitas lutas, mas encontra em Deus o refúgio bem presente em dias de angústia (Sl 46.1). Por isso em meio aos tormentos, o salmista se levanta e pergunta para si mesmo: “por que estás abatida ó minha alma? Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (v 11). A certeza de que Deus o socorreria era o que o motivava a permanecer em pé. Ele bem sabia que tudo aquilo iria passar e que lá na frente ele iria cantar o hino da vitória, pois diz que ainda louvaria ao Senhor. Ele finaliza dizendo que Deus é a sua salvação (v 11b). Sim, Deus é a nossa única salvação.

O apóstolo Paulo disse que: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos" (2Co.8,9). As lutas são grandes, mas tempos que confiar em Deus e a esperar nEle. Não podemos permitir que a impaciência, a ansiedade, incredulidade e o desânimo nos impeça de caminhar. Temos que prosseguir até o fim, na certeza de que Deus é fiel para cumprir todas as promessas que tem para as nossas vidas.


Conclusão

O salmista estava em profundo abatimento espiritual. Sua alma estava atormentada em meio a tanta tribulação. Mas mesmo em meio ao turbilhão de pensamentos desencontrados que povoavam sua mente, ele procurou manter o foco em Deus pois sabia que Ele era a sua única esperança e a sua salvação. Clamava pela presença do Senhor como quem tem sede. Essa deve ser também a nossa disposição diante do Senhor. Buscar a sua presença de todo o nosso coração como alguém que ama e deseja estar ao lado de seu amado.

Saber esperar em Deus é outra grande lição que esse texto nos ensina. Não uma tarefa muito fácil, saber esperar, sobretudo, em meio às lutas, mas temos que aprender a confiar em Deus.  Manter viva a memória dos feitos do Senhor é fundamental para alimentar a nossa fé. Não podemos nos esquecer de onde Ele nos tirou e o que já fez por nós. Se estamos passando pela prova, temos que entender que é um treinamento ao qual somos submetidos a fim de nos prepararmos para um combate maior no plano espiritual. Deus não quer que sejamos meninos inconstantes levados por todo vento de doutrina (Ef 4.14), mas que possamos nos robustecer na graça e conhecimento para atingirmos a estatura de varões perfeitos em Cristo (Ef 4.13).  

Que possamos passar pela prova, glorificando o nome do Senhor.


Sonia Oliveira

Veja aqui alguns dos Estudos disponíveis no Arquivo do blog:

sexta-feira, 21 de julho de 2017

JÓ - A Essência da Adoração

Texto Bíblico: Jó 1.6-12;  2.1-6

Introdução

O livro de Jó trata sobre um dos grandes questionamentos acerca do motivo pelo qual Deus, sendo justo e amoroso, permite que pessoas íntegras e justas tais como Jó (1.1,8) sofram tanto. Há alguns segmentos teológicos que defendem a ideia de que o sofrimento e  a pobreza  são incompatíveis com a vida cristã e se isso acontece, é porque há pecados ocultos envolvendo a vida da pessoa.  E esse é também o principal argumento que os amigos de Jó vão defender para justificar a tese que levantam na tentativa de encontrarem uma resposta plausível para o sofrimento de Jó. Mas, qual é a explicação real para esses fatos?  Neste breve estudo, pretendemos refletir sobre essas questões e esperamos poder contribuir para um melhor entendimento acerca de um tema tão apropriado para os nossos dias.  

Autoria: Não se tem certeza, mas há estudiosos que defendem ser Moisés

Contexto histórico de  Jó
Há quem diga que essa história é uma lenda, que serve apenas como ilustração para tratar sobre o tema em questão. Porém há indícios históricos de que Jó existiu de fato.  Além disso, a própria Bíblia traz outras referências que corroboram essa narrativa. E uma delas, no Antigo Testamento, Deus faz menção a Jó, colocando-o na mesma posição que Daniel e Noé, no que diz respeito a sua retidão (Ez 14.14,20).  Em outra passagem, no Novo Testamento,  Jó é mencionado  como  exemplo de paciência em meio à tribulação (Tg 5.11). O Apóstolo Paulo afirma que tudo o que antes fora escrito na Bíblia (A.T) serve para o nosso ensino, para que, “pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança (Rm 15.4). Se fosse lenda, que benefício essa história nos traria? Não há dúvidas, portanto, tratar-se de uma situação real.

Localização Geográfica
Com relação aos estudos feitos por historiadores, não há um consenso quanto a localização exata da região, porém, não resta dúvidas que de fato Uz, cidade mencionada na Bíblia existiu.  De acordo com as informações obtidas, Jó viveu na época dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó), aproximadamente em torno de 2100-1800ª.C, na terra de Uz.  A maioria dos eruditos acreditam que  Uz ficava a sudeste da Palestina e do Mar Morto, ou ao norte da Arábia, próximo a Edom (Lm 4.21). Há, porém, outros, que acreditam que Uz ficava ao nordeste do Mar da Galileia, na direção de Damasco. 

Vida Pessoal de Jó
O autor do livro inicia a narrativa descrevendo o personagem desta história, como sendo um homem sincero, reto e temente a Deus, que se desviava do mal (1.1). Fala ainda sobre a sua vida familiar. Ele tinha sete filhos homens e três mulheres (1.2). Seus filhos promoviam grandes festas, ora na casa de um, ora na casa de outro e assim, comiam, bebiam e se alegravam (1.3). Jó era um pai zeloso e se preocupava com a vida espiritual de seus filhos, a ponto de, logo após decorridos esses períodos de banquetes, ele se levantava de madrugada e oferecia sacrifícios a Deus, segundo o número de seus filhos, porque temia que estes, de alguma forma pudessem ter cometido algum pecado contra o Senhor (1.5).

Aplicação: Os filhos de Jó representam os filhos de crentes que não têm compromisso com Deus. Levam a vida do jeito que bem entendem, sem nenhuma preocupação senão a satisfação de seus prazeres. Jó, um homem temente ao Senhor, logicamente, intercedia pela vida de seus filhos. Porém, a salvação é individual. Cada um dará conta de si mesmo diante do Senhor. Não é pelo fato de um pai ou uma mãe ser serv0(a) de Deus que seus filhos estarão isentos de responsabilidades. Por isso, além de interceder por nossos filhos, devemos sim, instruí-los nos caminhos retos do Senhor e quando se fizer necessário, repreendê-los sim, pelos seus atos para que eles tenham a oportunidade de endireitar seus caminhos enquanto ainda há tempo.  No caso dos filhos de Jó, não houve tempo, foram surpreendidos por um vento forte que interrompeu seus sonhos.

Vida Financeira de Jó
A Bíblia descreve Jó como um homem de muitas posses.  Ele tinha sete mil ovelhas, três mil camelos e quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Havia muitas pessoas trabalhando para ele de forma que era, na sua época, o mais rico de todo o Oriente (1.3).

A  Acusação de Satanás
O próprio Deus testifica sobre Jó dizendo que não havia ninguém na face da terra que se assemelhava a ele, pois era homem sincero, reto e temente a Deus e que se desviava do mal (1.8b). Ao ouvir tal declaração, Satanás, reagiu, como era de se esperar, dando início a um discurso de acusação. Segundo a sua teoria, havia uma relação baseada em interesse da parte de ambos. Por um lado, declarou que a adoração de Jó não era sincera pois somente se dava porque recebia certas vantagens pessoais de Deus. Por outro lado, Satanás insinua que Deus obtinha a devoção de Jó por meio de concessões de bênçãos e subornos.

10 Será que não é por interesse próprio que Jó te teme? 10Tu não deixas que nenhum mal aconteça a ele, à sua família e a tudo que ele tem.  Abençoas tudo o que Jó faz e no país inteiro, ele é o homem que tem mais cabeça de gado. 11Mas, se tirares tudo o que é dele, verás que ele te amaldiçoará sem nenhum respeito” (1.9-11 NVI).

O que Satanás estava dizendo é que Deus era ingênuo por não perceber que a Jó somente o adorava por interesse e que, se Ele retirasse tudo de Jó, ele o amaldiçoaria. O que podemos entender com essa afirmativa é que Satanás está afirmando que o amor ao dinheiro é maior do que o amor a Deus. E que as pessoas somente buscam a Deus por interesse, não pelo que Ele é, mas sim pelo que Ele pode fazer.

Satanás ao emitir seu julgamento, não considerou os atributos de Deus. Deus sonda e conhece o coração do homem e sabe o que pensa o que sente... (Sl 139). Deus sabia quem era Jó e não titubeou em deliberar autorização para que a fidelidade de Jó fosse provada. Disse o Senhor a Satanás “ Pois bem, faça o que quiser com tudo  o que Jó tem, mas não faça nenhum mal a ele mesmo” (1.12).

O Início das Aflições de Jó
Deus liberou Satanás a tocar em todas as áreas da vida de Jó, menos nele mesmo.  Com isso, Deus está impondo limites a Satanás, ou seja, ele não pode nada além do que Deus permite. Tão logo recebe permissão, Satanás parte para cima de Jó com toda a fúria possível.  Ele usou se utilizou de algumas estratégias  para levar Jó a ruína em um só dia. Enviou os Sabeus,  que atacaram a fazenda e levaram tudo, deixando rastro de mortes para trás (1.15). O “fogo de Deus”, faz referência aos raios que atingiram as ovelhas e os pastores, e só um sobreviveu para levar esta notícia a Jó (1.16). Enviou também os Caldeus que se dividiram em três bandos e atacaram  o rebanho  e levaram os camelos, matando a espada os empregados (1.17). E por fim, enviou um vento forte vindo do deserto (provavelmente um furação) que soprou sobre a casa do filho mais velho de Jó onde estavam todos festejando em um banquete, quando a casa desabou e todos morreram, provavelmente soterrados (1.18). 

Em cada um desses episódios, sobrevivia um servo de Jó que imediatamente corria para levar a notícia do ocorrido. Jó, tendo ouvido cada relato, levantou-se, rasgou suas vestes,  raspou sua cabeça e depois, ajoelhou-se no chão, encostou o rosto no chão e adorou a Deus, dizendo: “Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu, o Senhor o tirou, louvado seja o seu nome!” (1.20,21). Assim, cai por terra o que Satanás havia dito, porque apesar de tudo o que aconteceu, Jó não amaldiçoou a Deus,  ao contrário, continuou adorando-o. Jó prova que ama mais a Deus do que o dinheiro e do que a família. Deus estava em primeiro lugar em seu coração.

Segunda Provação de Jó
No Capítulo 2, vemos novamente, Satanás se apresentar diante de Deus, como quem não quer nada, mas já com segundas intenções. Deus estava muito satisfeito com a atitude de Jó. O diálogo entre os dois se estabelece e novamente Deus enaltece as qualidades de Jó:

“Você viu o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e tão honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado. No entanto, você me convenceu e eu o deixei desgraçar Jó, embora não houvesse motivo para isso. Mesmo assim, ele continua firme e sincero como sempre” (2.3 NVI).

Satanás é obstinado e começa com suas insinuações novamente. Desta vez o alvo dele é Jó. Satanás diz que quando uma pessoa tem saúde, é fácil adorar a Deus, mas Jó, certamente blasfemaria se ele o tocasse. Conhecendo o coração de Jó, Deus o autoriza a tocá-lo (2.4,5). E, imediatamente, Satanás fez com que o corpo de Jó ficasse coberto de feridas horríveis, da cabeça a planta dos pés (2.6). O corpo de Jó estava cheio de bolhas que lhe provocavam dores. Certa feita, estando ele sentado sobre um monte de cinzas, pegou um caco para estourar as bolhas e para se coçar.

Sua esposa, aproximando-se e vendo-o naquele estado ficou perplexa e disse: “Como pode ainda assim continuar mantendo a integridade? Amaldiçoa o seu Deus e morra” (2.9).  Sem que ela se desse conta, Satanás havia colocado em sua boca, exatamente o que ele pretendia que Jó fizesse. Porém, Jó respondeu-lhe: “você fala como uma doida. Se recebemos coisas boas de Deus, por que não vamos aceitar também o mal” (2.10). Assim, Jó prova que ama mais a Deus do que a si mesmo. Mais uma derrota para Satanás.

Os Amigos de Jó
Os amigos de Jó tendo ouvido sobre tudo o que havia sucedido, combinaram entre si de irem visita-lo e cada um, vindo de um lugar diferente, marcaram para se encontrar e irem juntos levar consolo ao amigo que estava sofrendo. Eram eles Eliafaz, Bildade e Zofar. Vendo Jó de longe, não o reconheceram, mas, ao se aproximarem perceberam ser ele mesmo então, começaram a gritar e a prantear. Em sinal de tristeza, rasgaram suas roupas e jogaram pó para o ar e sobre suas cabeças. Aproximaram-se, sentaram-se no chão ao lado de Jó e permaneceram em silêncio por sete dias e sete noites diante do quadro de sofrimento que estavam presenciando (2.11-13).

O  Sofrimento Visto por Ângulos Diferentes
Em dado momento, o silêncio foi interrompido por uma sequência de diálogos onde os amigos de Jó  tentavam teologizar a situação apontando possíveis fatos que justificassem o sofrimento pelo qual ele estava passando.

Argumentos dos Amigos de Jó
Os argumentos dos amigos de Jó contêm graves erros teológicos. Eles partem do pressuposto que se o justo é poupado dos revezes da vida  e que está isento do sofrimento.  E que a raiz de todo o mal que sobreveio sobre Jó seria, certamente, devido a algum pecado por ele cometido. Jó alega inocência. Reconhece-se como pecador, mas que a sua vida era pautada em retidão diante do Senhor. Mas essa justificativa não intimida os amigos que investem contra Jó as mais pesadas acusações, chamando-o de adúltero, ladrão de órfãos e viúvas,  de hipócrita e louco, por não reconhecer a própria culta e não confessar ao Senhor a fim de que Ele o restaurasse por completo. Zofar ainda alega que Deus estava sendo misericordioso com Jó, porque ele merecia coisa pior diante da gravidade de seus erros. (4.7). Elifaz adverte Jó a procurar a Deus e diz que se estivesse no lugar dele, certamente faria o mesmo (4.8-16) e que Jó, não deveria desprezar a disciplina do Todo Poderoso (4.17-27).

Aplicação: Jesus não nos enganou dizendo que viveríamos em um mar de rosas, muito pelo contrário, Ele mesmo disse que se quiséssemos segui-Lo, deveríamos tomar a Cruz - simbolizando o sofrimento,  (Mt 16.24), e que no mundo o justo teria aflições, mas nos confortou para que tivéssemos bom ânimo, pois Ele venceu o mundo (Jo 16.33) e estaria conosco até o final dos tempos (Mt 28.20). Se considerarmos a vida dos Apóstolos, todos passaram por lutas e perseguições, por privações e provaram sua fé em meio aos combates. Por que seria diferente conosco? Deus não impediu que Daniel fosse jogado na cova dos leões, mas esteve com ele na cova para manifestar a sua glória. Também, não impediu Mizaias, Azarias, Ananias de serem lançados na fornalha, mas Ele estava lá com eles, era o quarto homem ali presente. Ás vezes, Deus não nos livra dos problemas, mas através das adversidades, Deus prova a nossa fidelidade.

O Desespero de Jó Diante das Acusações
Jó estava já em desespero diante dessa avalanche de acusações infundadas. O seu estado emocional se desintegrou e ele desejou a morte. Ele não se achava perfeito, mas negava as acusações que lhe eram proferidas, porque sabia não merecê-las. Diante de Deus ele procurava ser justo e reto e por isso, não compreendia o motivo de seu sofrimento e questionava a Deus: Porque te escondes de mim? Porque me tratas como a um inimigo? (13.24). Perguntava ao Senhor “quantas faltas e pecados cometi ? De que erros e pecados estou sendo acusado?”(13.23 NVI). Por dezesseis vezes ele repetiu,  “por que, Senhor?”. Mas Deus permanecia em silêncio. Ele, em seu desespero e angústia lamentou o fato de ter nascido e desejou a morte. Levantou aos Céus cerca de trinta e quatro queixas porque considerava que Deus o estava punindo injustamente. Ele queria respostas, mas não as obteve para seu desespero.

Aplicação: Nem sempre Deus se pronuncia para nos dar satisfação sobre o que Ele está fazendo e o porquê disso ou daquilo.  Enquanto ele está em silêncio, a nossa fé é forjada. O silêncio de Deus indica que Deus está trabalhando em nosso favor e que não é hora dEle se manifestar, por razões que não nos compete saber. Mas quando a obra que Ele está realizando se completar, então saberemos que a longa espera terá valido a pena, que não foi em vão, porque o que Deus tem para nossas vidas é infinitamente maior do que almejamos. (Is 55.8,9).

Deus Rompe o Silêncio e Mostra a Jó Sua Grandeza e Sabedoria
A partir do Cap 38, Deus rompe o silêncio e se manifesta a Jó, em meio a um redemoinho (v 1). Em outras versões vai dizer que, no meio da tempestade. Ou sejam, em meio ao turbilhão de situações adversas, quando tudo parecia não fazer sentido, Deus aparece majestosamente e questiona Jó se ele sabia quem era o Deus a quem servia. Porque, muitas vezes, olhamos para o gigante que se levanta contra nós e nos esquecemos do tamanho do Deus a quem servimos

Deus inicia o diálogo mostrando que Jó estava fazendo um julgamento equivocado acerca do Deus a quem servia. Disse-lhe: “As suas palavra só mostram a sua ignorância, quem é você par pôr em dúvida a minha sabedoria?”(38.2). Muitas vezes, julgamos que Deus precisa de ajuda e nos propomos a dar solução para determinada situação, como se Ele não soubesse o que e o porquê de agir desta ou daquela forma.

Deus pede a Jó que o avalie pela extensão de suas obras. O Salmista diz que “Os Céus declaram  a glória de Deus e o firmamento proclama a obra feitas pelas suas mãos” (Sl 19.1), portanto os homens são inescusáveis em negar a glória de Deus (Rm 1.20). E nesse Capítulo, Deus se declara a Jó em toda a sua majestade dizendo: “Onde você estava quando eu lancei os fundamentos da terra? Quando eu espalhava as estrelas no céus; quando eu cercava as águas do mar para elas não invadirem a terra. Me explica Jó, onde fica o reservatório do vento; Você sabe de onde vem a luz e qual a origem da escuridão?

O profeta Isaías declara que Deus é aquele que sustenta o Universo na palma de sua mão, que conhece cada estrela pelo seu nome e quando as chama elas se apresentam diante dEle;  Que a sua sabedoria não procede de conhecimentos humanos; que todas as nações são como uma gota de água que cai do balde e todas elas não são nada diante dEle.  Que uma ilha para Ele é como um grão de areia (Is 40). Você tem noção da grandeza desse Deus a quem você serve?

A esta altura, Jó é quem estava em silêncio. Não tinha respostas e foi se encolhendo diante da grandeza, soberania e majestade de Deus. Jó reconheceu os seus limites e pode ver, com seus olhos o tamanho do Deus a quem ele conclui que só conhecia de ouvir falar, mas que agora contemplava com seus olhos a sua grandeza (Cap 42) e concluiu dizendo: “Eu reconheço que para Ti nada é impossível e que nenhum de seus planos podem ser impedidos” (42.2).  Jó fica envergonhado diante de Deus por tudo o que havia dito (v 6).

Deus Reverte a Situação de Jó
A Bíblia nos ensina que devemos orar pelos nossos inimigos e os que nos caluniam (Mt 5.44).  A sorte de Jó foi mudada a partir do momento que ele se pôs a orar pelos seus amigos (42.10). Jó se compadeceu da ignorância deles pois depois da experiência que teve com Deus, tudo ficou tão pequeno. Ele demonstrou ter um coração manso e piedoso.  Enquanto Jó orava, Deus foi visitar os amigos dele e os repreendeu duramente não só pelo julgamento errado que fizeram acerca de Jó como também, pelas inverdades teológicas que pregaram.

Na sua presunção, se arvoraram como juízes. Foram arrogantes, maldosos e não tiveram compaixão do sofrimento de Jó. Eles se julgavam sábios e profundos conhecedores das coisas de Deus, porém, estavam equivocados, e o pior de tudo é que não praticavam a verdadeira religião que é o amor ao próximo.  Eles disseram muitas inverdades sobre Jó e colocaram sobre ele um peso desnecessário quando deveriam apenas consolá-lo em sua dor. Há momentos que palavras são desnecessárias, mas as atitudes sim, fazem a diferença.

Então, Deus diz que não aceitaria a oração deles, somente as intermediadas por Jó. A Bíblia diz: “Sabemos que Deus não ouve a oração do pecador, mas ouve ao homem que o teme e pratica a sua vontade” (Jo 9.31). Por isso, se faz necessário que oremos pelos que ainda não foram alcançados pela graça salvadora do nosso Senhor Jesus Cristo. Por meio de nossas orações, Deus opera na vida dos pecadores. Jó é restituído em dobro de tudo quanto havia perdido enquanto orava pelos seus amigos. Pessoas vinham de longe, parentes, amigos, para visita-lo e contemplar o que Deus havia feito em sua vida.

Levavam consigo presentes, dinheiro e ouro, e “assim, abençoou o Senhor o último estado de Jó, mais do que o primeiro, porque teve catorze mil ovelhas e seis mil camelos e mil juntas de bois e mil jumentas” (42.12). Também a vida familiar de Jó foi abençoada, o casamento restaurado e ele teve sete filhos e três filhas e não havia em toda a terra moças mais belas que suas filhas (42.15).  Talvez você esteja se perguntando, como Deus devolveu em dobro, se ele teve apenas dez filhos ao todo porque os outros haviam morrido. A resposta é simples. O Pastor Hernandez Dias Lopes disse acertadamente, que filhos não se perdem, porque sabemos onde estão e com quem estão. Portanto, filhos se acrescentam, e não diminuem.

Conclusão 
Jó nem de longe imaginava o real motivo de seu sofrimento. Ele foi provado como ouro, para depois ser aprovado. Havia um propósito de Deus em todo o sofrimento que passou. Deus é um Deus de propósitos. Caiu por terra todas as teses de Satanás que no início do livro insinuou que o homem seria incapaz de ter um relacionamento com Deus sem nenhum interesse. Que toda adoração a Deus é decorrente de uma relação de troca benefício.  Insinuou que Jó amava mais o dinheiro do que a Deus; que amava mais a família do que a Deus; e que amava mais a si mesmo do que a Deus. Sem saber que estava em cheque uma questão tão relevante, Jó demonstrou que o verdadeiro adorador adora Deus não pelo que Ele faz, mas pelo que Ele é.  Deus está à procura de verdadeiros adoradores, daqueles que o adoram em espírito e em verdade (Jo 4.23). Que esta mensagem possa despertar em nós a essência da adoração. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Aprendendo a ser Dependente de Deus

Assim, como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formou os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que fez todas as coisas” (Eclesiastes 11:5)

Introdução

Uma das maiores inquietações do homem é perceber que não está no controle de sua própria vida. É saber que é impotente diante de algumas situações. Ele tenta, por todos os meios ser autossuficiente. Se assim o fosse, ele certamente, não precisaria de ninguém, seria o deus de si mesmo. Porém, por mais que relute em admitir, existe um ser maior que está no controle de todas as coisas, que rege e governa soberanamente todas as coisas. Enquanto não nos submetermos a Ele, estaremos nos assemelhando as ondas de um mar revolto que se agita de um lado para o outro até se chocar em um penhasco e perder as suas forças. É nesses momentos que o homem entra em um conflito existencial muito grande e se desespera. Refletir sobre essas questões se faz necessário e este texto nos fornece elementos riquíssimos para repensarmos a nossa vida e nos posicionarmos diante do criador.

Síntese da Mensagem do Livro de Eclesiastes

O livro e Eclesiastes mostra as várias nuances da vida do homem que tenta viver sem Deus. Por um lado, ele acredita que pode ser feliz por si mesmo. Busca, desenfreadamente satisfazer os seus desejos de muitas formas, através do poder, do conhecimento, das riquezas, do sexo, dos vícios, etc.  Por outro lado, descobre também, o engano, porque nenhuma dessas coisas podem preencher o vazio existencial que sente. Porque há em nós um vazio do tamanho de Deus, e nada e ninguém é capaz de preenche-lo senão o próprio Deus.

E foi essa a trajetória de Salomão, um homem que recebeu da parte de Deus muita sabedoria e riquezas, mas que preferiu conduzir sua vida segundo o seu próprio entendimento, de forma extravagante e fútil.  Embrenhou-se pelo caminho do engano e tornou-se um homem infeliz. Como consequência, houve um declínio espiritual acentuado em sua vida.

Teve tudo o que um ser humano poderia desejar, fama, honras, riquezas, prazeres, porém, distanciou-se dos caminhos do Senhor e, somente na sua velhice, reconheceu que desperdiçou a sua vida com futilidades pois, admitiu que todas essas coisas eram apenas “vaidades” (Ec 1.2). Considerou que o mais importante de tudo é o tempo que dedicamos ao Senhor (Ec 12.1), o temor e obediência aos seus mandamentos (Ec 12.13,14). Conclui afirmando que esse é o único caminho que dá sentido à vida.  Restou-lhe o arrependimento.  

11 “E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando tinha feito; e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito e que proveito nenhum havia debaixo do sol” (Ec 2.11)

Nível de Dependência de Deus

Salomão considerou que a melhor coisa é estar com Deus, estar debaixo da obediência e do temor a Ele. Porém, ter uma vida com Deus implica em relacionamento. Esse relacionamento é baseado em uma estreita relação de obediência e dependência. Não podemos estar com Deus, de braços dados com o mundo ou querendo conduzir as coisas à nossa maneira. Deus exige de nós exclusividade e obediência. Portanto, cabe a nós a decisão de optarmos em estar por inteiro nesse relacionamento.

9 Mas vós, sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido [...] 10 Em outro tempo, não éreis povo, mas agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora, alcançaste misericórdia”.(1Pe 2.9,10)

Somos um povo separado, adquirido por um alto preço (1 Co 6.20), fomos resgatados pelo precioso sangue de Jesus Cristo (1 Pe.1.19). Ele nos transportou do Reino das trevas para a Reino do Filho do seu amor em quem temos a redenção (Cl 1.13,14). Temos agora uma nova vida em Cristo e essa nova caminhada com Cristo, não é fácil. O exercício de nos despojarmos da velha natureza, onde o centro de tudo era sempre o “eu”, para agora, abrirmos mão da nossa própria vontade para que a vontade soberana de Deus se realize em nossas vidas. O apóstolo Paulo diz que “a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2) e suas bênçãos nos enriquece e não acrescenta dores (Pv 10.22). Ou seja, o que Deus nos concede, por acréscimo de suas misericórdias é sempre bom.

O Exercício da Fé

A Bíblia diz que o justo viverá pela fé (Hc 2.4c). Essa fé, não é algo que adquirimos por nós mesmo, mas nos é concedido como um dom de Deus (Ef 2.8b). Essa fé é forjada mediante as circunstâncias que nos conduzem a um nível profundo de confiança em Deus, alicerçada na Palavra ( Rm 10.17). De acordo com a Bíblia, fé “é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (Hb 11.1). Ou seja, é dar existência a algo que ainda não aconteceu, mas que se tem a plena convicção que vai acontecer.  A fé é condição essencial para que o mover de Deus aconteça em nossas vidas, conforme o autor das Cartas aos hebreus diz: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6). Deus usa as circunstâncias para forjar a nossa maturidade cristã.

A Dinâmica do Agir de Deus                                                         

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento...” (Ec 11.5a)

Assisti outro dia uma ministração do Pr Luciano Subira, cujo título é “O Agir Invisível de Deus”, onde ele traz uma interpretação muito interessante acerca deste versículo. E vou tomar a liberdade de aqui fazer um rascunho da sua fala para ilustrar melhor esta tão rica mensagem.  Tomando a sua própria fala ele diz “que Deus, não é apenas um  Deus que age, mas que tem o controle de tudo o que faz”, fazendo  menção do Cap 11 de Eclesiastes no v 5c. Sim, Deus age em todas as circunstâncias e de forma nem sempre tão clara para o nosso entendimento. Muitas vezes, consideramos que Deus não está vendo o nosso problema e não está agindo em nosso favor pelo simples fato de que não temos evidências palpáveis para avaliar essa situação. Este versículo, nos oferece a possibilidade de dimensionar o agir de Deus mesmo quando estamos diante de um fenômeno do qual não conseguimos compreender.

O texto foi escrito em uma época que não se tinha os conhecimentos meteorológicos para afirmar com certeza como se dá as mudanças do vento. As correntes de ar se movimentam o tempo todo e mudam a direção constantemente. A olhos nus não temos como compreender o fenômeno em si, mas podemos percebê-lo pelo movimento que faz em torno de si por onde passa, movimentando as plantas e podemos senti-lo pelo tato. Mas não o compreendemos. Assim é também em relação a Deus. Embora não desconsiderando a sua existência, por falta de conhecimento, não entendemos a sua maneira de agir e até mesmo o seu silêncio, muitas vezes.

Há um Tempo para Todas as Coisas

...nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida...” (Ec 11.b)

Estamos acostumados a um imediatismo, onde tudo tem que ser para ontem. No entanto, no que diz respeito as coisas de Deus, não funciona desse jeito, pois “tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec 3.1). Deus tem propósitos bem definidos para as nossas vidas. O silêncio de Deus não significa indiferença para conosco e sim, que não nos compete saber o que Ele está fazendo no momento. Assim como o processo de formação da criança no ventre de sua mãe está oculto aos nossos olhos o seu desenvolvimento ocorre lentamente, e no tempo oportuno, podemos contemplar os resultados pelas evidências claras e óbvias. Desta forma também, Deus trabalha por nós.

O Agir de Deus é um Ato de Soberania

“... assim como também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” (Ec 11.b).

Nem sempre podemos compreender o agir de Deus. Mas uma coisa é certa, Ele não está indiferente à nossa situação. Ele sabe cada detalha de nossa vida, sabe as nossas necessidades, as nossas angústias e tristezas. Nem sempre Ele revela os seus propósitos e só vamos compreendê-lo mais adiante. O silêncio de Deus nos deixam inseguros e inquietos. Mas o silêncio de Deus significa também, que Ele está trabalhando e não quer ser interrompido.  Deus está no controle de todas as coisas.  A decisão de nos revelar ou não as coisas, pertencem a Ele. Isto é um ato de soberania divina. Ele não tem por obrigação nos dar satisfação de seus atos. Mas uma coisa é certa, ele sempre trabalha em favor do seu povo.

Esse tempo de espera, embora seja angustiante, é necessário. Pois, é justamente nesse período mais difícil que devemos exercitar a nossa fé e aprender a esperar no Senhor. O profeta Isaías diz que “aqueles que esperam no Senhor, renovarão as suas forças e subirão com asas, como águias; correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão” (Is  40. 31), isto porque, segundo diz o salmista Davi, “O Senhor é a minha força e o meu escudo, nEle confia o meu coração” (Sl 28.7). Se, verdadeiramente, cremos que Deus é Deus, então temos que aprender a confiar nEle e descansar o nosso coração porque no tempo oportuno, a vitória vai chegar.

Deus tem Propósitos em Tudo o que Faz

Muitas vezes nos questionamos sobre as razões que levam Deus se manifestar de forma clara em algumas situações e em outras se manter em silêncio. Podemos cogitar, pelo menos duas razões pelas quais isso ocorre, conforme veremos a seguir.

1- Fortalecer a nossa fé

Conforme já, mencionamos neste texto, toda a nossa relação com Deus é baseada na fé, “visto que andamos por fé e não por vista” ( 2 Co 5.7), ou seja, é pela fé que nos movemos e não por aquilo que podemos ver. A nossa relação com Deus, necessariamente não precisa estar pautada no que vemos mas no que sabemos. E o que sabemos é o que Ele mesmo disse, de que sempre estaria conosco em todas as circunstâncias: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.20). É uma afirmativa de que Ele se faz presente o tempo todo em nossas vidas. E disse mais, “Nunca te deixarei nem te desampararei ” (Hb 13.5b). Assim, não nos resta dúvidas de que, apesar de todas as circunstâncias, muitas vezes adversas,  Deus está presente em nossas vidas e não há porque duvidar que tudo o que Ele faz é para o nosso bem. Como diz a canção, “Se Ele fizer Ele é Deus, senão fizer, continua sendo Deus”. A Ele a glória para todo o sempre, amém!

2- Nos Preservar dos Ardis do Maligno

O apóstolo Paulo fala que o Evangelho era um mistério oculto de Deus e que só foi revelado depois da obra concluída para que o inimigo não tentasse interferir em seus planos (Ef 3.3-9). Esse mistério só foi revelado pelo Espírito aos santos (Cl 1.26). Não tendo conhecimento pleno dos planos de Deus, o diabo, muitas vezes, na tentativa de impedir que os propósitos de Deus se cumpram, ele acaba corroborando para que a vitória seja alcançada, como foi no caso de Jesus, pois, acreditando que conduzindo Jesus a morte seria o fim, ele fez de tudo para que isso acontecesse. No entanto, era justamente a morte na cruz que levaria Jesus a cumprir os planos de redenção da humanidade, onde ali cravou na cruz, toda condenação que pesava sobre nós (Cl 2.14.) E a sua ressurreição é a vitória que nos enche de esperança e nos move para irmos ao encontro do mestre.

Da mesma forma, o inimigo não pode saber de tudo, ele observa, colhe informações, espreita, mas não sabe o que Deus tem para nossas vidas. Sabe que somos escolhidos e isso já é motivo o suficiente para tentar nos barrar. Porém, ele não tem permissão para fazer o que quer. Só pode agir até onde Deus permite. E por qual razão Deus permite o mal? Para que o mal resulte em um bem maior. No caso de Pedro, Jesus disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo” (Lc 22.31). Mas por que haveria necessidade de Pedro ser tentado? Ele não tinha uma vida íntima com o mestre? Não havia largado tudo para seguir Jesus? Sim. Tudo isso é verdade.

Mas havia ainda necessidade desse mesmo homem ser aperfeiçoado para a grande obra que Deus tinha para realizar através de sua vida. Ele era ainda muito carnal, muito impetuoso. Precisava alicerçar a sua fé e amadurecer. Depois desse episódio, Pedro nunca mais foi o mesmo. Estava agora pronto para se tornar pescador de homens (Jo 21.17).  Mas mesmo na prova, Deus é o quarto homem na fornalha como no caso de Mizael, Ananias e Azarias ( Dn 1-30). Depois de avisar Pedro a respeito da provação que o aguardava, Jesus disse: “Mas, eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça...”” (Lc 22.32). O diabo também tentou contra a vida de Daniel, e usou de astúcia para lança-lo na cova dos leões. Deus não impediu a ação do inimigo, mas esteve com Daniel na cova, impedindo que os leões o devorasse.  Com isso a glória de Deus foi manifesta e Daniel foi colocado entre os principais do reino. Ou seja, o que era para ser a destruição, acabou servindo de alavanca para Daniel alcançar a vitória que Deus havia projetado em sua vida.


Conclusão

Como vimos, Deus é Deus e tem um jeito que é só dEle. Não nos cabe questionar o seu modo de agir “porque dEle e por Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11.36). A Ele seja a honra, a glória e o louvor para sempre. Tudo o que Ele faz é perfeito e não há nada que fuja ao seu controle. Estamos guardados debaixo de suas potentes mãos e sabemos que os seus pensamentos sobre nós são bons (Jr 29.11), maiores e melhores do que os nossos pensamentos (Is 55.9). Deus tem planos grandes em nossas vidas, mas antes de nos colocar onde Ele quer, ele nos capacita, nos prepara. Mesmo sem entender o porquê de muitas provações, se Deus permitiu é porque há um propósito para isso e só vamos entender mais adiante quando chegarmos no lugar onde Ele já preparou para estarmos. José precisou passar por tudo que passou para chegar onde chegou. Em parte, o inimigo usou seus irmãos para tentar destruir os planos de Deus em sua vida, mas acabou conduzindo-o para o lugar onde estava reservado a sua vitória. José só foi entender isso lá na frente. Sejamos perseverantes, sempre constantes na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão, no Senhor (1 Co 15.58).

Sonia Oliveira

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