terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Asafe: O Perigo de Perder o Foco

Quanto a mim, os  meus pés quase que se desviaram, pouco faltou para que escorregassem os meus passos.” (Sl 73.2)

Introdução

Este Salmo trata de um problema que inquieta muita gente porque, embora Deus seja soberano e justo, o que se percebe, na maioria das vezes, é que os ímpios geralmente prosperam (vv 3-12), enquanto quem serve a Deus parece levar uma vida mais difícil e com poucas regalias (vv 13,14). Esse também era o entendimento de Asafe e por não compreender essas coisas, quase apostatou na fé (v 2). Porém, ao abrir seu coração a Deus, o Senhor o restaura e o faz entender o fim trágico dos ímpios e a alegria das bênçãos vindouras para os que perseveram na fé.

I – As Ameaças que Comprometem a Vida do Crente

Podemos extrair alguns ensinamentos neste texto que nos adverte quanto aos perigos que ameaçam a nossa vida espiritual e comprometem os planos de Deus em nossas vidas

     a)  Murmuração – Nm 14.1-4; 11,12

Tomando como pano de fundo a história narrada em Números, vemos um Deus amoroso e zeloso para com seu povo, que os havia tirado da escravidão e os estava conduzindo a Terra Prometida, terra que mana leite e mel. Durante a travessia, Deus cuida de seu povo nos mínimos detalhes, porém, não obstante a esses cuidados, o povo murmura e ameaça retroceder. Vendo tais atitudes, Deus não se agradou e decidiu puni-los.  

A Bíblia diz que os planos de Deus são sempre maiores do que os nossos: “os meus pensamentos são mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55.9b). Não podemos sequer imaginar a grandeza do que Deus tem preparado para os que Ele ama e tem como filhos. Porém, somos imaturos e inconsequentes e por não compreendermos e nem tampouco aceitarmos a disciplina necessária para o nosso crescimento durante a caminhada, às vezes murmuramos, da mesma forma que o fez o povo de Israel. Com essa atitude infantil, só retardamos as nossas bênçãos.

Asafe também desviou seu olhar para observar o que acontecia à sua volta. Analisou a vida dura que levava, mesmo servindo e sendo fiel a Deus e  teceu comparações quanto a aparente prosperidade do ímpio que vivia sem temor e mesmo assim, pareciam tão felizes, usufruindo de uma vida abastada e tranquila e isso o fez experimentar uma certa  inveja. Começou a se sentir injustiçado e a tristeza entrou em seu coração a tal ponto, que ele mesmo diz que quase retrocedeu na fé (v 2).

     b)  Desânimo – Js 1.5b

O olhar sob a perspectiva de derrota que Asafe teve o levou a desanimar. O desânimo é um grande vilão na vida do crente porque neutraliza as suas forças e o faz estacionar ou até mesmo paralisar sua caminhada na fé. O desânimo pode surgir também, quando nos sentimos impotentes diante de uma situação da qual não podemos humanamente falando, mudar ou realizar. Esse foi o caso que Josué enfrentou quando teve que assumir responsabilidades que aos seus olhos pareciam maiores do que poderia suportar. Moisés havia morrido e ele teria que sucedê-lo porque esta era a vontade do Senhor. Embora durante muito tempo estivesse na retaguarda ajudando Moisés, não se sentia apto para a liderança que lhe fora agora,  confiada.

Porém, quando Deus escolhe alguém para uma tarefa, Ele é quem capacita e quem sustenta. Vendo a angústia de seu servo disse-lhe apenas: “esforça-te e tenha bom ânimo”(Js 1.6a). Ou seja, o que o Senhor estava lhe dizendo, em outras palavras, era para que ele não olhasse para o tamanho do problema e sim para o tamanho do Deus a quem servia. Competia-lhe apenas fazer a sua parte, porque Deus é quem estava na direção daquele negócio. E para tirar o peso que sentia sobre os ombros, disse-lhe: “como fui com Moisés, assim serei contigo. Não te deixarei nem te desampararei” (Js 1.5b).

O que isso nos ensina, que quando Deus chama alguém para uma tarefa, Ele o capacita e o sustenta. Mas há coisas que compete ao homem fazer, por isso Deus disse: “esforça-te”. Deus tem projetos grandes para realizar nas nossas vidas. Mas, a garantia de que Deus está conosco não nos isenta das nossas responsabilidades e tampouco, das lutas e das adversidades. Jesus mesmo disse: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33).

Em Cristo e com Cristo, somos mais do que vencedores (Rm 8.37). Precisamos estar preparados para o enfrentamento das mais diferentes situações que haveremos de enfrentar em nossa caminhada e no exercício da nossa missão, na certeza de a vitória é certa, porque,  maior é o que está conosco (2Rs 6.16) e é Ele quem está à nossa frente pelejando pela nossa causa.

    c)  A Apostasia –v 2
A Bíblia diz que Deus corrige a quem Ele ama e a quem tem como filho (Hb 12.6). Portanto, as adversidades são na verdade, a disciplina a qual somos submetidos com o propósito de sermos aperfeiçoados para a boa obra. Se a nossa edificação espiritual estiver alicerçada na Palavra de Deus, pode vir a luta que vier, nós resistiremos e permaneceremos em pé, porque Jesus é a nossa Rocha inabalável. O apóstolo Paulo disse: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou  a espada ?” (Rm 8.35). E ele conclui dizendo: “Por amor de ti somos entregues à morte todos os dias: formos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas, somos mais do que vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8.36,37).
As adversidades são também, utilizadas por Deus como ferramentas para nos capacitar para a obra que Ele tem a realizar em nossas vidas: “Há um tempo determinado para todas as coisas” (Ec 3.1). Há um tempo preparação para o exercício eficaz de toda chamada na obra de Deus. Vemos na trajetória da história de José, ele trabalhando como copeiro, como mordomo, antes de ser colocado como governador do Egito. Precisou aprender a administrar coisas pequenas para depois administrar coisas grandes.
Davi, depois ter sido  ungido, passou por um longo período de preparação. Cerca de dez anos passou fugindo das investidas insanas de Saul e, durante esse período, teve que desenvolver certas habilidades. Aprendeu a liderar um exército de seiscentos homens, teve que aprender estratégias militares de ataque e defesa, assim como também, de liderança e dependência de Deus. Quando assumiu o reinado, estava preparado e foi um grande líder de seu povo.
Asafe, no entanto, não conseguiu compreender as adversidades sob a perspectiva de aprendizado e nem entendeu os propósitos de Deus em sua vida e por isso quase apostatou. Ele confessa: “quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram...” (v 2). Apostatar, significa perder a fé, desviar-se do caminho. Esse é um grande perigo na vida do crente, olhar para os lados, desviar a atenção do que realmente interessa. A nossa esperança está em Cristo. Ele é o autor e consumador da nossa fé. O apóstolo Paulo fala sobre a esperança dos que esperam em Cristo quando diz: “tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm 8.18). Sabemos o futuro que nos aguarda e isso nos traz consolo e nos dá esperança.  Vale a pena perseverar.
    
    d)    A Inveja – v 3

Asafe reconhece que, perdeu o foco, perdeu a visão espiritual ao tecer comparações em relação a sua vida e a vida daqueles que, aparentemente, são felizes, e confessa ainda ter sentido inveja deles (v 3), mesmo sabendo que não tinham o menor temor a Deus. O livro de Provérbio nos ensina: “não tenha o teu coração inveja dos pecadores, antes, sê no temor do Senhor todos os dias” (Pv 23.17). E esse é um outro grande perigo na vida do crente, a inveja. Esse sentimento é corrosivo e provoca abalos emocionais terríveis, conduzindo a pessoa ao desânimo e a prostração. O nosso alvo é Cristo, não podemos olhar nem para direita nem para esquerda, mas permanecer firmes no Senhor.
  
II -  O Deus que Restaura – vv 16-18

Asafe estava profundamente perturbado com a situação que se lhe apresentava diante dos olhos (v 16), não conseguindo compreendê-las, foi prostrar-se diante de Deus em busca de resposta (v 17). Deus lhe fez entender sob a perspectiva da eternidade, qual seria o fim dos que não temem ao Senhor. Ele compreende e o que era antes, motivo de tristeza, agora lhe traz paz e alegria ao coração. O salmista por fim, conclui que embora sendo fraco, Deus é quem o fortalecia e o sustentava (v 26) e experimenta a verdadeira alegria daqueles que servem ao Senhor, sabendo da urgente necessidade de anunciar todas as suas obras (v 28) a fim de alcançar todos os que ainda estão perdidos. Finaliza dizendo: “eu todavia, estou de contínuo contigo...” (v 23). Ou seja, afirma que permaneceria firme, na presença do Senhor mesmo em meio a luta.Ele entende e que as coisas deste mundo são transitórias e de nada adianta ajuntar tesouros aqui na terra (Mt 6.19). Mais vale agregar valores que são eternos.  
Conclusão

Quando interpretamos equivocadamente uma situação, podemos sofrer grandes abalos emocionais e isso pode trazer grandes prejuízos para a nossa vida espiritual, conforme vimos no texto. O Apóstolo Paulo em sua Carta aos Filipenses diz: “Não andeis inquietos por coisa alguma, antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas “ (Fp 4.6). Precisamos colocar nas mãos de Deus todas as nossas ansiedades e descansar o nosso coração. Deus é soberano e, embora nem sempre as coisas façam sentido para nós, precisamos aprender a confiar, sabedores que o que Ele tem para nossas vidas é infinitamente maior e melhor do que possamos dimensionar. E as suas promessas para nossas vidas vão se cumprir e nada poderá impedir.

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